No contexto da fotografia portuguesa, em virtude duma menor e tardia expansão da prática fotográfica, o olhar dos outros, o dos estrangeiros, acaba por ter uma importância que não terá correspondência em localizações mais “centrais” como a França ou a Inglaterra.

Com outros conhecimentos e abertura, libertos de condicionamentos locais, de pressões sociais e políticas, da “naturalização” dos hábitos nacionais, os fotógrafos estrangeiros  introduziram frequentemente um olhar crítico e certeiro que não era fácil encontrar em praticantes locais, maioritariamente profissionais de estabelecimento comercial ou amadores com olho posto nos salões fotográficos.

Tim Motion, situa-se aqui numa situação particular. Irlandês, chega ao Carvoeiro e ao Algarve em 1961. A esse algarve, agora irreal, constituído quase só de locais, retorna para viver nos anos seguintes, aprendendo a falar português e tornando-se uma figura de Carvoeiro, onde haveria de ficar até aos anos setenta.
Aspirante a pintor, acabaria por tornar-se fotógrafo, muito por conta do encontro com o também irlandês Patrick Swift, que o levaria a ser responsável pelas fotografias do livro “Algarve,a portrait and a guide” (com texto do sul-africano David Wright).

As fotografias de Tim Motion não se situam no campo do folclorismo turístico, nem dum fotojornalismo mais convencional ou crítico. O facto mais notável acerca delas é talvez é o de serem simultaneamente um olhar de fora e um olhar familiar. Não sendo limitado pelo contexto fotográfico local, a sua abordagem não é a dum estranho. Fotografa as feiras, os pequenos eventos do dia-a-dia, as gentes que passam, com proximidade, sem a rigidez dum país preso a formalidades. Mas fotografa igualmente com o encanto de quem sabe da singularidade desses episódios.

Quem quiser melhor perceber do que aqui se fala, pode dar uma olhadela ao livro “Algarve 63” (http://bit.ly/algarve63), um produto do esforço notável dos Encontros de Fotografia de Lagoa e em particular do seu director, Nuno de Santos Loureiro.