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Acampar na Islândia – Um guia definitivo

INTRODUCÃO

Acampar na Islândia é algo que faz parte da lista de desejos de muita gente. Nós sabemos! Fez parte da nossa até ao dia em que finalmente decidimos passar 15 dias com pouco mais do que uma tenda e um saco cama num dos países mais fantásticos para este tipo de actividade. Acampar faz também parte da cultura local. Muitos islandeses adoram acampar e é relativamente vulgar tirarem o fim de semana para explorar as highlands do seu próprio país de tenda às costas.

Acampar num território como a Islândia, com as características inerentes à própria geografia e pelo estado intocado da maior parte dos locais, pode garantir uma sensação única de liberdade e de comunhão com a natureza, contudo, uma má preparação ou as circunstâncias imprevisíveis do clima islandês, podem muito facilmente estragar uma viagem.

É por isso um lugar-comum afirmar que acampar na Islândia só se pode fazer se o tempo o deixar! Há várias circunstâncias que podem ser um obstáculo. Começamos logo pelo frio. A temperatura média de alguns meses de inverno torna a tarefa de acampar em algo muito complicado, mas é certamente o vento e as rajadas que atingem facilmente velocidades de 200Km/h, que tornam tudo muito mais perigoso. Apenas a título de curiosidade, saiba que a rajada mais forte alguma vez medida na Islândia atingiu os 267Km/h. Já o período de 10 minutos com ventos constantes com maior velocidade média, atingiu os 225Km/h. Mesmo com preparação, mesmo com equipamento “adequado”, tanto o frio como o vento (nem tanto a chuva), tornam a experiência em algo muito duro e que só um plano de contingência pode salvar.

Costumamos avisar os nossos amigos que procuram a aventura islandesa em regime de campismo que, se não têm experiência de campismo, a Islândia não é certamente o local para “estrearem” as suas habilidades.

2 tendas husky e um Toyota Land Cruiser na Islândia

O PERFIL DO ESPAÇO DE ACAMPAMENTO NA ISLÂNDIA

Primeiro ponto: não pode acampar onde lhe apetece! Lá porque a Islândia tem muito espaço vago e fora de Reyjavik parece, frequentemente, um deserto, não tem permissão para colocar as tendas no terreno só porque parece um sítio óptimo para mostrar no Instagram. Nota importante: se está vedado, tem dono! Se tem cancelas é porque devem estar encerradas.

Em novembro de 2015, na forma de legislação, foram definidas orientações relativamente aos locais onde se pode ou não pode acampar em território islandês. Uma das decisões mais importantes está relacionada com o facto de ter passado a ser considerado ilegal o acampamento em tendas, trailers, caravanas, campers ou qualquer outro equipamento, fora das zonas designadas como espaço para campismo, a não ser que exista uma permissão escrita do dono do terreno no qual está a acampar.

Não lhe vamos dizer que só pode acampar dentro de parques de campismo. Não é assim e há locais, especialmente nas highlands, onde esses parques nem sequer existem e, os que existem, estão fechados durante uma significativa parte do ano. A lei procura defender as zonas povoadas. Não imaginam as coisas que se vêem na Islândia. Desde gente que acampa ao lado do aeroporto em Keflávik até quem acampe no jardim de casas particulares. Desde finais de 2017 que a polícia tem agido em zonas povoadas do sul da Islândia sobre aquilo que já se denomina por “sleeping cars“. Nada mais do que turistas que dormem dentro de carros (ou campers) dentro das povoações. A resolução foi aprovada e as medidas estão em acção.

Deve por isso procurar zonas de acampamento permitido, sempre que possível. Espera-se que a breve trecho, toda a forma de “campismo fora de estrada” esteja proibido na Islândia, embora continuemos a crer que o campismo nas highlands será sempre (ou quase) dessa natureza, sem qualquer impedimento legal.

Power tip: Acampar fora das zonas designadas dentro dos Parques Nacionais é total e absolutamente proibido. (Þingvellir, Vatnajökull e Snæfellsjökull). Zonas adicionais onde o acampamento também está proibido fora de espaços próprios: Álafoss, Dimmuborgir, Dyrhólaey, Fjallabak, Hverfjall, Kirkjugolf, Mývatn e Jökulsárgljúfur.

Quanto aos parques, há-os para todos os gostos, mas não espere o mesmo tipo de infraestrutura que encontra num parque de campismo em Portugal. Os parques são mais ou menos deixados à sua sorte desde o fim do verão até meados de maio. Nesta altura do ano reabrem, mas apresentam um funcionamento irregular.

Bilhete com QR Code para banho no parque de campismo de Skaftafell na Islândia. Custou 500 ISK, aproximadamente 3,50 EUR

“Bilhete” com QR Code para banho em Skaftafell.

Têm muitas vezes espaços comuns de cozinha e refeição, chuveiros pagos, electricidade e até máquinas de lavar roupa, mas têm sobretudo uma “recepção” que funciona, mais eficazmente, na altura de cobrar a diária. Excepções a esta descrição são os parques de Egilsstaðir, Skaftafell e Akureyri (Hamrar), este último um dos mais interessantes que já conhecemos. O parque de Skaftafell é o que usufrui de instalações mais modernas, isto por via da exploração comercial dos passeios aos glaciares que envolve o empreendimento. Os banhos são normalmente pagos em qualquer parque da Islândia e vão desde as 500 ISK em Skaftafell às 1000 ISK em Seljalandsfoss.

Power tip: um bom parque de campismo grátis está localizado bem perto de Reykjavik e chama-se Ölfus. É um espaço plano, relativamente cuidado e equipado com W.C. com chuveiros. Os curadores exploram um café e uma loja de artigos islandeses e é assim que pagam as despesas do parque que serve então como chamariz àquele local. Existe inclusivamente uma cesta de ovos caseiros dentro das instalações sanitárias (mistas, já agora) onde pode comprar alguns ovos para o seu pequeno-almoço. As pessoas são convidadas a deixar o dinheiro em troca dos ovos consumidos.

Voltando aos restantes parques…

O terreno é vulgarmente acessível em termos de fixação das tendas, mas há parques como o de Skaftafell, em que uma espia guia de material mais resistente tem mesmo de ser usada para fixação das espias/estacas vulgares. Simultaneamente, deverá fazer uso de um ângulo de ataque mais acentuado na colocação da espia no terreno. Não é também uma má ideia fazer-se acompanhar de um conjunto de estacas para solo duro em detrimento das estacas “normais”. Em alguns locais poderá encontrar a necessidade de cantoneiras para solos instáveis (cinza ou neve).

Power tip: num solo instável, com neve ou cinza vulcânica, pode amarrar as guias a uma pedra e enterrar a mesma no solo.

Um conselho útil é também o que lhe deixamos relativamente ao treino do uso do seu equipamento. Se não é um praticante experimentado em campismo, e mesmo vai decidir arriscar a Islândia como destino de estreia, não se esqueça de praticar antes de partir. Levantar uma tenda é algo que normalmente demora breves minutos. Debaixo de chuva e acossado pelo vento, falamos de outro tipo de “aventura”.

A MELHOR ÉPOCA DO ANO PARA ACAMPAR NA ISLÂNDIA

Bom, se o inverno é por vezes demasiado castigador para acampar na Islândia, é no verão que acontecem os maiores e mais “famosos” incidentes. Por dois tipos de razões. O primeiro é porque o verão traz todo o tipo de visitante. Mesmo os mais impreparados acreditam que é uma altura excelente para acampar na Islândia. O segundo tipo de razão, ainda mais importante, é porque o verão islandês não é necessariamente (nem vulgarmente) sinónimo de bom tempo.

O verão islandês é costumeiro em chuvas frequentes e nem por isso ligeiras. Os ventos fortes não são menos fortes no período a que vulgarmente se chama verão. Além disso, um dos perigos do vento é a grande quantidade de matéria, tantas vezes perigosa, que é atirada pelo ar. No verão, no pico do turismo, mais matéria há para ser atirada de um lado para o outro e, consequentemente, maior é a probabilidade de ocorrência de um incidente. Durante o período de maio de 2017, por exemplo, um dos grandes problemas das fortes tempestades que se fizeram sentir na zona de Vík, esteve relacionada com material de obras que acabou por voar a velocidades altas o suficiente para destruir os vidros de algumas dezenas de viaturas.

Algo que muita gente também não sabe, e que de alguma forma está relacionada com a imprevisibilidade dos ventos na Islândia, é que as fogueiras (vulgarmente criadas em acampamentos) são proibidas naquele país.

Se falarmos de inverno, como tivemos oportunidade de já o referir anteriormente, são outros os obstáculos. Menos chuva, é certo, mas ventos fortes e temperaturas baixas, são algo que se pode esperar com quase toda a certeza. Também digno de nota é o facto de muito poucos parques no país estarem abertos todo o ano. Como tal, em caso de necessidade e clima impróprio, poderá não ter grande alternativa a dormir dentro do carro ou a procurar outro tipo de alojamento.

MATERIAL ADEQUADO PARA ACAMPAR NA ISLÂNDIA

Não vamos entrar em detalhes relativos a à roupa que deve usar. Esse assunto terá de ficar para outro post. O que queremos, neste guia, é enumerar o material de campismo propriamente dito.

Sem mais delongas:

  • Uma tenda adequada à possibilidade de ter de suportar ventos extremos e muita chuva. As tendas têm especificações que exprimem a capacidade (normalmente diária) de suportar determinadas cargas de água. Por exemplo, se a impermeabilidade da sua tenda se exprime por valor como 5000mm, isto significa que o tecido suporta 5000mm de água a cada 24 horas. Há muitas marcas por onde escolher. A resistência da tenda ao vento é muito importante em locais como a Islândia. As marcas têm investido não apenas em tecidos mais eficazes, como em desenhos mais neutros na resistência ao vento e em materiais mais resistentes, contudo leves, para a estrutura de suporte das tendas. Uma boa tenda é cara mas há boas razões para o ser;
  • Um saco-cama preparado para baixas temperaturas. Mesmo em alturas como o final de abril, em que a temperatura já não se pode considerar extrema, tivemos oportunidade de experimentar valores próximos de -10ºC durante a “noite” em zonas mais altas e a norte. Uma boa escolha de saco-cama deverá começar num que tenha como temperatura de conforto os -7 a -10ºC, uma temperatura de baixo conforto próxima dos -15ºC e algo como -20ºC para condições extremas. Lembre-se contudo que, para uma pessoa 5ºC é muito frio, para outra 5ºC graus pode ser uma temperatura aceitável;
  • Algo de que tanta e tanta gente se esquece: um sleeping pad ou colchão. Não se trata tanto de conforto. Trata-se sobretudo de isolamento. O frio tem uma forma eficaz de invadir tudo o que toca directamente no solo. Colocar o saco-cama em contacto com o solo da tenda é diminuir substantivamente a eficiência desse equipamento. Tanto na Islândia como em qualquer outro destino, um sleeping pad de que gostamos particularmente porque alia um excelente isolamento a um conforto acrescido, é o Exped Synmat 9. Há outros! Não somos patrocinados ou comissionados pela marca por isso, para nós, é absolutamente indiferente por qual vai optar;
  • Dependendo da altura do ano, uma lanterna, preferencialmente de cabeça;
  • Fogareiro e combustível. Aqui, duas opções se vão colocar no seu horizonte. Se falarmos de eficiência na capacidade de aquecimento, a opção pelo fogareiro a combustível líquido (vg. gasolina branca) é normalmente a escolha dos campistas mais experientes e de quase todos os praticantes de escalada. Contudo, e porque a probabilidade de estar a ler este artigo por não ser um campista experiente é relativamente alta, sugerimos que opte pelo fogareiro a gás butano, um objecto que, mesmo para os mais inexperientes, não deve ser totalmente desconhecido. Hoje em dia já se começam a ver muitos fogareiros multicombustível (butano e combustível líquido) que, por via de adaptadores, lhe permitirão fazer uso dos dois tipos de combustível. Na Islândia é relativamente simples fazer a troca de botijas de gás butano em qualquer posto de abastecimento de combustível. Os preços variam ao longo do país mas não significativamente. O peso de gás que vai gastar dependerá muito da temperatura em que tiver de operar, assim como do vento que atingir tanto a chama como a panela. O que queremos que perceba é que em temperaturas relativamente baixas (e nem precisam de ser muito extremas), com vento e com gás butano, podemos falar de 15 minutos para aquecer 1 simples litro de água;
  • Utensílios para cozinhar, mas de boa qualidade. A diferença de tempo e de gasto energético de uma panela de elevada qualidade para uma panela de segunda, é gritante e vale todos os euros de diferença;
  • Bússola e cartas em papel! Se vai arriscar-se pelas highlands islandesas, nunca é demais referir que nem sempre os telemóveis ou as aplicações que encerram, são realmente úteis;
  • Hand-warmers. São produtos úteis para uma pequena emergência. Podem ser colocados dentro do saco-cama, por exemplo. Pode também usar água quente dentro de uma garrafa e colocar a mesma dentro de uma meia;
  • Comida liofilizada de qualidade. Vulgarmente utilizamos produtos Trek’n’Eat mas, como em tudo o resto, cada um decide por si.

Power tip: Não deixe botas ou comida do lado de fora da tenda. No caso do calçado, o mais provável é acordar e dar de caras com um par de gelados que vai ter de calçar. A humidade contida nas botas vai gelar. Irá não apenas calçar botas geladas como ficará com os pés húmidos assim que o gelo começar a derreter com o calor dos seus pés.

NOTAS FINAIS SOBRE ACAMPAR NA ISLÂNDIA

Assim, antes de sair de mochila às costas, pronto(a) para a aventura da sua vida, lembre-se que não deverá ser uma experiência que recordará pelo sofrimento mas sim pelas memórias fantásticas que deverá gerar. A Islândia está longe de ser o pior sítio do planeta para se acampar. Muito longe! Acredite. Contudo, como para qualquer destino com características com as quais não lidamos diariamente, deverá ser abordado com cautela mas, sobretudo, com excelente planeamento.

Tenha sempre um plano de backup! Se o tempo se tornar demasiado imprevisível, cancele o seu plano de acampamento em vez de cancelar o seu futuro. Se as coisas se tornarem perigosas, procure ajuda e um abrigo o mais rapidamente possível.

Se vai para as highlands islandesas redobre a cautela e o planeamento. Não é para todos! Respeite esse facto.  Lembre-se que os perigos são ainda mais imprevisíveis e que a ajuda estará, inevitavelmente, ainda mais longe. As comunicações podem até existir, porque a Islândia é um país com excelente cobertura de telemóvel, mas isso não quer dizer que a ajuda esteja a um telefonema de distância. A título de curiosidade: As telecomunicações na Islândia funcionam muito melhor do que, por exemplo, na Ilha de Skye.

Durante o inverno, os serviços de resgate de emergência da Islândia não estão em serviço permanente. Também neste período, as cabines ou abrigos de montanha (com a excepção de Landmannalaugar e Húsadalur) estão fechadas e sem manutenção.

A Viewpoint Tours tem uma viagem fotográfica testada e comprovadamente excepcional da qual pode fazer parte para satisfazer o seu desejo de acampar num país como a Islândia. Procure o “Islândia Road Trip & Camping” no nosso site.

Narceja comum na Islândia

MEGA Power tip: A ave da imagem acima é, para quem não conhece, uma Narceja-comum. À primeira vista pode parecer irrelevante para este post, mas podemos garantir que a qualidade de um acampamento na Islândia, desde meados de abril a agosto, depende muito do facto de terem tampões ou a capacidade de abstração suficiente para “abafar” aquilo que a Narceja faz durante a “noite”. 🙂

Boas aventuras!

O Rui dedica-se à fotografia desde 1992. É um apaixonado pela “velha-escola”, pelo filme e pelo cheiros da câmara escura, mas hoje em dia é o digital que paga as contas. Desde 2012 que se dedica exclusivamente à fotografia. Empenhado numa abordagem mais tradicional à fotografia de paisagem, com o p&b como base e com a impressão como fim último de qualquer imagem, é também e sobretudo, um dos responsáveis pela Viewpoint Tours.