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Julia Margaret Cameron não foi a primeira mulher fotógrafa. Outras se lhe haviam adiantado nesse mérito, desde logo a botânica, e também britânica, Anna Atkins, que com a técnica fotográfica ainda a gatinhar, criaria aquele que é considerado o primeiro livro fotográfico ” Photographs of British Algae: Cyanotype Impressions (1843–53) “. Mas a Cameron cabe a honra de ser a primeira mulher a ser reconhecida artisticamente nesse campo, com exposições e aquisições públicas pelo South Kensington Museum, o futuro Victoria and Albert Museum, de Londres.

Num momento em que, para muitos, aceitar a fotografia como arte estava para lá do aceitável, a fotógrafa entendeu entrar por aí e, enfrentando, não só os que consideravam a fotografia como pouco mais que cópia artisticamente estéril da realidade, como também os fotógrafos profissionais (homens) que desdenhavam das suas opções técnicas e estéticas (apontando-lhe amadorismo), acabaria por ser pioneira em aspectos que a tornaram uma referência para a fotografia actual.

Usou os “tableaux vivant”, encenações de temas históricos, em voga na época, não como cópia das pinturas historicistas, mas como aplicação dum imaginário pessoal, próximo da referência da pintura pré-rafaelita sua contemporânea e tirou proveito de possibilidades técnicas inesperadas, usando, por exemplo, a desfocagem e as profundidades de campo como forma de induzir alguma carga onírica e mítica nas suas imagens. Mesmo nos retratos, a suas opções afastam-se do padrão da época, das fotos de estúdio com adereços profusos e fundos pintados.

Dela é aquele que, decerto, é o melhor retrato de Charles Darwin. Nele, o cientista, que enfrentara embates com as autoridades religiosas britânicas, pouco contentes com a sua “A origem das espécies”, aparece só, isolado num fundo neutro escuro, sem outro foco que não o seu semblante austero. Cameron transforma, sem adereços e guarda-roupa, o fugidio Darwin num novo Moisés, com a autoridade da ciência e da razão, no fim da travessia do deserto.

 

Texto e selecção de imagem: Não me mexam nos JPEGs / Júlio Assis Ribeiro