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Num mundo que se afigura muito complicado, há por vezes a ilusão interna de que Portugal é uma ilha. Que é imune aos ventos de tormenta, impermeável a populismos e violência. E esta convicção funda-se frequentemente na ladainha dos brandos costumes nacionais.

Porém, os brandos costumes que alimentam apaixonadas conversas, têm muito mais de construção do que de facto. E não é preciso recuar aos Descobrimentos, em que um código de honra medieval (e muita ambição) alimentaram uma expansão, e um império, construído com significativas doses de artilharia e força. Recue-se apenas cento e poucos anos, e temos o “progenitor” do fotojornalismo português, Joshua Benoliel, a retratar um país em que se mata com demasiada frequência.

Em 1908, no mesmo ano em que se matou um rei e um príncipe herdeiro, promoveu-se uma tentativa de apaziguamento da situação política que levou ao regicídio. O chamado “Governo de Acalmação”, presidido por Ferreira do Amaral, anulou parte das medidas da “Ditadura de João Franco”, e realizou eleições a 5 de Abril, pouco mais de dois meses passados sobre a morte de D. Carlos. Nestas eleições de “Acalmação”, tumultos com populares no Largo de São Domingos, em Lisboa, causaram catorze mortos e cerca de cem feridos.

Benoliel, nesses tempos de câmaras pouco dadas a registos de acção, captura o rescaldo dos confrontos. Fotografa, não o caos, mas as marcas que o evidenciam.

Diz-se que o desconhecimento da História nos leva a repeti-la.

Aos contos de brandura que muitos gostam de acreditar, esta imagem oferece um contraponto. Um de muitos. Nela há um passado que olha para nós, que nos avisa e que nos confronta com História e Geografia: O país não é uma ilha e, com ignorância e manipulação, é muito fácil voltar a ser o que já foi.

 

Texto e selecção de imagem: Não me mexam nos JPEGs / Júlio Assis Ribeiro