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Imaculada - Fotografia de Graciela Iturbide

No entendimento do tempo, tende-se a teorizar que há duas concepções que estruturam as culturas.

Por um lado, tem-se o chamado tempo cíclico, frequentemente considerada a noção de tempo original. As culturas primitivas, dominadas por ciclos naturais como os das estações ou das migrações animais, tenderiam a considerar o tempo como uma eterna repetição. A criação do mundo é normalmente formulada num tempo mítico, separado do tempo vivenciado, com a intervenção frequentemente de múltiplas divindades, responsáveis cada uma por partes distintas da criação.

Por outro lado, temos o chamado tempo linear, que assume o conceito duma direcção: o tempo teve um início e terá um fim. É a concepção prevalecente nas religiões do livro, monoteístas. E é a concepção herdada e adoptada pelo racionalismo, que a “sacraliza” na ideia de progresso. O tempo linear é o tempo das culturas ocidentais.

No que diz respeito às culturas do Novo Mundo, o tempo cíclico parece ser predominante nas grandes civilizações. Mas estudando as pequenas culturas ameríndias, alguns antropólogos entendem que há, por vezes, uma terceira concepção do tempo. Certos povos têm mitos da criação que se passam num tempo mítico. Mas este tempo mítico não é atemporal, segue paralelo à realidade experienciada, e ocasionalmente os dois tempos, o mítico/mágico e o real fundem-se, comunicam. As grandes perturbações, os fenómenos inexplicáveis, são atribuídas a esta confluência. De certa forma, o tempo vivenciado é ainda o tempo da criação.

E é interessante pensar que esta terceira via pode ser a responsável pela afloração do mágico no real que caracteriza grandemente as culturas latino-americanas. Seja na literatura, seja no cinema, seja na fotografia, a pulsão realista que o racionalismo ocidental fomentou na elite cultural latino-americana mistura-se com frequência com intromissões do mágico, do irreal, sem aparente negação nem repulsa.

Texto e selecção de imagem: Não me mexam nos JPEGs / Júlio Assis Ribeiro