Partindo da afirmação provocatória de Gérard Castello-Lopes de que não haveria uma fotografia portuguesa, porque tudo na fotografia, excepto a água usada nos tempos do analógico, era estrangeiro, parece claro que é complicada a questão de um carácter nacional e identitário na fotografia portuguesa.

Até porque, por razões históricas, há alguma aversão em lidar seriamente com o tema. O recorrente discurso identitário da narrativa legitimadora do Estado Novo, com um grande gosto pela simplificação e pela redução (pela manipulação, enfim), exige ainda hoje muitos cuidados. É muito fácil escorregar neste terreno, onde esse lastro transporta facilmente a abordagem para o folclorismo e para o lugar-comum.

Gérard Castello-Lopes apontava no mesmo texto para que a única forma de introduzir um carácter nacional era pela via pessoal. Transpor uma luta individual nesse confronto com a realidade portuguesa, era a única forma real de nos furtarmos a copiar estilos de fora ou a repetir os esquemas representativos aceites (ou impostos) por cá.

As imagens pessoais e realistas do Portugal eminentemente rural de meados do século vinte vivem por vezes nessa tangente entre a realidade e essa idealização redentora da ruralidade, tão grata ao ideário vigente.

A cozinha da casa dos avós de Diogo Margarido, transmite-nos esse Portugal esforçado que o Secretariado Nacional de Informação gostava de veicular, mas fá-lo com propriedade e verdade, aquela não é uma cozinha rural abstracta, é uma cozinha verdadeira, vivenciada pelo fotógrafo, e transmite-nos uma dureza e uma dificuldade diária que a faz descolar do estereótipo. Nela, de português, há muito mais do que a água.