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Nitidez é, em primeiro lugar, um conceito com alguma subjectividade e sem “início ou fim” cabalmente balizados. É resultado de uma série de variáveis e pode, para o mesmo binómio sujeito/equipamento, possuir diferentes graus, dependendo de valores de abertura, ISO, iluminação, etc.

Fazer uma fotografia com nitidez aparente elevada é, vulgarmente, o objectivo de quem fotografa, sendo que, “vulgarmente” é a palavra a reter e a margem a adicionar a tudo o que se segue. As próximas dicas são, salvo melhor opinião, dicas simples que, a jusante, agradeceriam um aprofundar dos conhecimentos teóricos por detrás de tais sugestões.

Velocidade do obturador

Se bem que nitidez e foco não sejam propriamente antónimos para desfoque de movimento, a verdade é que muitos iniciantes na fotografia sofrem até perceber qual a velocidade de obturador (tempo de exposição) adequada para evitar que os seus registos não sofram de falta de nitidez. Que é como quem pergunta, “que velocidade uso para as fotos não ficarem tremidas?”.

Uma regra bem antiga é a que advoga o uso de uma velocidade de obturador igual a 1/n, em que ‘n’ é a distância focal a uso. Assim, se está a fotografar com uma distância focal de 100mm, deverá usar um tempo de exposição (velocidade) de, pelo menos, 1/100. Para uma distância focal mais elevada, digamos 500mm, a velocidade mínima aconselhada seria de 1/500. Em sentido inverso, para uma ultra grande angular, com uma distância focal de, por exemplo, 16mm, um tempo de exposição mais alargado (i.e. menor velocidade de obturador), situado perto de 1/16, será suficiente.

Não sendo uma lei, é uma regra que, à luz da tecnologia actual, será a garantia de zero – leu bem – zero imagens “desfocadas” por motivos de velocidade de obturador inadequada. A referência à “tecnologia actual”, prende-se sobretudo com o facto de os sistemas de estabilização actuais, tanto integrados nas objectivas, como integrados nas câmeras (sensores), ou mesmo em ambos (Olympus OM-D E-M1X), garantirem muitos stops de margem para quem fotografa. Digamos que, hoje em dia, temos de errar a velocidade por mais de 3 stops para conseguirmos “estragar” uma imagem. Ora, errar por mais de 3 stops (2³ = 8 vezes) é em si um problema maior do que qualquer desfoque.

Uma chamada de atenção para o facto de esta “regra” se definir para sensores full-frame. Para, por exemplo, sensores APS-C, o crop factor deve ser levado em conta, e se, também por exemplo, uma velocidade de 1/100 é adequada para uma distância focal de 100mm numa full-frame, a velocidade mínima aconselhada num APS-C, será de 1/160 (x 1.6).

Use tripé!

É o que se chama um grande dahh, mas há que nunca opte por ele! Se uma velocidade de obturador mais elevada (reduzido tempo de exposição) não é uma opção técnica viável, o melhor é mesmo adicionar estabilidade através do bom e velho tripé. O tripé é um dos inseparáveis companheiros dos fotógrafos de paisagem porque recorrentemente, as nossas opções técnicas para o registo (valor ƒ elevado, tempos de exposição alargados com manutenção de valores nativos de ISO), nos obrigam a fazer uso de um tripé. O tripé é, também na fotografia de paisagem, um fortíssimo aliado na construção de uma adequada composição. Também serve muito bem de bengala, claro!!! 

Foque o que quer ver focado!

Parece redundante e óbvio, mas por vezes escapa! Há duas formas de atingir este objectivo, a saber:

  1. selecione manualmente os pontos de foco da sua câmera (falamos de câmeras digitais, claro);
  2. passe a objectiva para modo de focagem manual (MF) e ajuste o ponto de foco através do anel de focagem.

Infelizmente a esmagadora maioria das objectivas actuais carecem de um bom e “pesado” anel de focagem, mas não será por isso que deixará de poder seleccionar o seu ponto de foco.

Uma das técnicas de focagem em fotografia de paisagem, passa por associar a segunda opção (MF) ao uso de um tripé. É muito vulgar vermos fotógrafos de paisagem a usarem a funcionalidade de live-view associada à ampliação digital (vulgarmente até 10x), passando simultaneamente para um modo de focagem manual na objectiva. É praticamente impossível falhar.

Use vidro de qualidade!

Há quem afirme que todas as fotografias são tão boas quanto o vidro por onde “entraram” na câmera. Soa a exagero, é exagero, mas como todo o bom chavão, apesar da hipérbole residente, resta sempre alguma verdade no fundo. A verdade é que, ao fim de algumas décadas de Fotografia, percebo que as câmeras, por melhores que sejam no momento, chegam e vão. As objectivas, quando de qualidade, atravessam gerações. Caramba, até a decisão de compra de uma câmera nova, passa por gerir o arsenal de objectivas em que se investiu tantos milhares de euros. Na minha última mudança de câmera, não passei de Canon para Sony por causa da quantidade de objectivas que fui coleccionando. Só por isso! Ouviste Canon?!

Este conselho relativo à qualidade das objectivas, deveria ser passado aos iniciantes na fotografia antes da compra da primeira câmera. É certo que a tentação de comprar uma câmera com lente de kit é muito grande e todos os fabricantes sabem disso. O argumento de venda é fortíssimo e por isso é que há tanta objectiva de qualidade… discutível… por aí. 

Mas isso afecta a nitidez das fotografias? Bom, a qualidade da objectiva afecta a qualidade da fotografia em termos globais. A nitidez é apenas um dos factores.

O vidro quer-se limpo!

Uma boa objectiva, coberta de lixo, não é a melhor objectiva que pode ser. Um pouco como cada um de nós!

Não ande sempre a limpar as objectivas, mas tenha particular cuidado com as agressões que estas sofrem. Antes e depois de qualquer saída, trate das suas objectivas, limpe-as com materiais adequados. Se estiver para aí virado(a), opte mesmo por colocar um filtro de protecção na altura da compra e proteja a sua objectiva das “limpezas”, limpando apenas o filtro. Nem sempre as manchas e o pó afectam a fotografia, mas em termos gerais, não são contributos muito positivos. Por último, mas não menos importante, não seja aquele fotógrafo que limpa a lente frontal da objectiva com “a parte fofinha da camisa ou da t-shirt”. Camisas e t-shirts, não foram desenhadas para limpar vidro de objectivas.

Estabilizador de imagem (IS, VR, etc.)

Se está a disparar sem tripé e o fabricante se cobrou pelo facto de ter integrado estabilização óptica na sua a sua objectiva, use-a! Em 99,5% dos casos, a estabilização do equipamento é benéfica. Ligue-a! A margem de erro para registos efectuados a velocidades de obturador abaixo do recomendado aumenta significativamente (2 ou mais stops, mas, salvo raras excepções, menos do que o anunciado pelo fabricante).

Se usar tripé, o sistema de estabilização das objectivas pode adicionar algum tipo de redução de nitidez. Os sistemas de estabilização “procuram” vibrações no sentido de as contrariar. Quando elas não ocorrem (mas teoricamente deveriam), o sistema de estabilização pode adicionar efeitos indesejáveis de falta de nitidez a cada registo. Os fotógrafos de paisagem convivem frequentemente com esta questão.

Use o valor nativo de ISO da sua câmera

Nativo, quer simplesmente dizer, o valor para o qual não é exercido “nenhum” tipo de amplificação do sinal analógico antes da passagem pelo conversor A/D. Quase isso! Demos alguma margem por comodidade.

Todas as câmeras (i.e. os sensores) possuem um valor ISO de base, quase sempre em torno de 100 ou 200. Os sensores não têm “mais sensibilidade a valores de ISO mais elevados”. Este tipo de afirmações, em 2019, já deveria ter acabado, mas parece que não vai acontecer tão cedo. Os sensores têm sempre a mesma “sensibilidade”, a manipulação do sinal é que resulta em mais ou menos capacidade de recuperação da imagem quando a iluminação é insuficiente. Associado a essa amplificação, está, a partir de certo ponto, o surgimento notório de ruído digital nas imagens. Que também não é “grão”! Por último, digamos também – igualmente com a devida margem – que a melhor relação sinal-ruído (RSR) se encontra nesse valor base de ISO. Assim, fotografias mais “limpas” e sem introdução de ruído que reduza a qualidade das mesmas, conseguem-se a valores de ISO mais próximos do valor de base ou nativo.

Todas as objectivas possuem um sweet spot!

Não confundir com sweet tooth! Isso são só gulodices.

Falamos do ponto “óptimo” do sistema óptico que é a sua objectiva. Chamam-lhe então o sweet spot. Saiba que não está colocado nos valores extremos de abertura relativa. Quer isto dizer que para os valores de ƒ mais baixos e mais elevados que a sua objectiva permite, a nitidez e qualidade global das suas imagens, não será – às vezes muito notoriamente – a melhor. Quer isto dizer que eu sei que a minha 50mm ƒ/1.4 se “porta” muito melhor a ƒ/2.8, ƒ/4 e ƒ/8 do que para a abertura máxima. Claro que a decisão criativa se sobrepõe à decisão técnica e, quando procuro a menor profundidade de campo possível com aquela objectiva, não tenho qualquer pudor em usar ƒ/1.4. Sei contudo que comprometo alguma qualidade de imagem. Sem medo!

Dispare em raw!

Antes de qualquer outra coisa, “RAW”, “Raw” ou “raw”, está tudo certo! “Raw” não é acrónimo de coisa alguma. Eu gosto de escrever RAW porque dá um aspecto mais animalesco à questão, mas não vá em modas.

Um ficheiro RAW é, em termos excessivamente simples, um ficheiro não processado. Fotografar em RAW tem muitas vantagens – que deixarei para outro post – mas a que posso desde já adiantar, é que pode sempre ajustar muitos dos parâmetros de manipulação da imagem, sendo um deles a nitidez. Claro que tudo isto deve ser limitado pelo bom-senso e, preferencialmente, aplicado de forma localizada através do uso de máscaras. Não se esqueça que o exagero tem sempre um efeito contrário ao inicialmente desejado.