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O Carnaval, antes da uniformização e do esvaziamento que, para muitos, é evidente, tinha uma clara função sociológica. Como outras festas, noutros tempos e geografias, como a Saturnália dos antigos romanos, este tipo de festividades permitia, em sociedades profundamente desiguais e apertadas pela obediência a rígidas regras sociais, uma inversão da ordem e uma suspensão provisória das leis. Permitia um alívio da pressão e da tensão social acumulada.

Por cá, num país com dificuldade em se soltar de lógicas feudais e arcaicas, o Carnaval servia claramente esse propósito.

E se alguns aspectos carnavalescos antigos se extinguiram das práticas actuais, resultado da evolução social, política e histórica, a sua memória permanece, nomeadamente a linguagem.

“Estar a ficar Xé-Xé” é uma expressão corrente e têm origem precisamente aí. O Xé-Xé era uma figura das paródias carnavalescas até cerca de 1910. Era uma sátira da Lisboa miguelista, caída em desgraça. O Xé-Xé envergava casaca setecentista e sapato de fivela. Usava igualmente punhos de renda e um chapéu bicorne com inscrição obscena. Com esta figura de antanho, de linguajar incoerente, os populares faziam remoques às autoridades coevas, também agarradas a velhos valores e tradições.

O fotógrafo Augusto Bobone capturou essa figura, antes da Primeira República e do Estado Novo a tornarem obsoleta. Antes que fiquem Xé-Xés, vejam as roupagens que devem usar!

Bom Carnaval.

Texto e selecção de imagem: Não me mexam nos JPEGs / Júlio Assis Ribeiro