A cultura clássica instituiu como símbolo da abundância a cornucópia. Significando etimologicamente “corno da abundância” (cornu copiae), a palavra remete para a mitológica cabra Amalteia que terá amamentado Zeus/Júpiter.

Mas, formalmente, a cornucópia assemelha-se com frequência a um búzio. E, para quem tenha crescido num ambiente piscatório, este equívoco faz todo o sentido. Ouviram-se dos mais velhos relatos de um tempo em que o mar era a tal fonte da abundância. Uma abastança renitente em ser colhida muitas vezes, mas visível e verdadeira.

Hoje, tais relatos parecem tão mitológicos quanto a cabra Amalteia. As visões submarinas já não são de cardumes imensos como manadas de bisontes, são mais de esporádicos agrupamentos de espécimenes num deserto líquido.

Artur Pastor fotografou atentamente essas comunidades de pescadores que tiravam um sustento difícil, mas fiável, do mar. E não sendo propriamente um fotógrafo de natureza, aqui e ali mostrou-nos as provas duma abundância de espécies e de capturas.

Através dele podemos provar, sem desconfiar da nossa própria memória, que não nos mentiam os velhotes que descreviam o mar. Para eles, a cornucópia era decerto um búzio.